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Folclore e Imaginação na Literatura Infantil

Folclore, tudo é possível. Ninguém se assusta com nada. Ou se assusta. E gosta! Histórias da tradição oral, mitos, fábulas, causos, contos de assombração estimulam profundamente a imaginação infantil. As lendas do folclore, como os contos de fadas, se passam no mundo da fantasia, num universo encantado fora dos limites do tempo e do espaço, mas onde qualquer pessoa pode estar. O mun­do fantástico facilita a compreensão infantil, pois, segundo especialistas, como o psicólogo Bruno Bettelheim, autor de A Psicanálise dos Contos de Fadas, ele se aproxima da maneira como as crianças enxergam o mundo. Na história do Curupira, o caçador arranca o coração desse mito da floresta - ele nem sente e continua vivo. Em outra lenda, a índia que morre na lagoa origina uma linda flor: A vitória-régia. O Negrinho do Pastoreio é enterrado num formigueiro, mas depois de alguns dias aparece vivo rodeado pelos cavalos que haviam sumido e com Nossa Senhora ao seu lado.
Monteiro Lobato, melhor que ninguém, utilizou os mitos nos seus livros. Com criatividade sem igual, fez seus personagens viverem aventuras com o Saci e a Cuca no Sítio do Picapau Amarelo. E não parou por aí. Levou as crianças à Grécia para viverem aventuras com os deuses e heróis da mitologia grega, fez surgir personagens dos contos de fadas no sítio e assim por diante. Uma grande mistura e muita imaginação que fizeram a alegria de diversas gerações, desde 1930.
Memória e alto-estima
O folclore é uma das expressões que melhor reflete o pensamento, o sentimento e a atuação de um povo. É um dos principais motivadores da sua auto-estima. Conhe­cer o folclore é muito importante para todo brasileiro porque com ele ficamos conhecendo muito da nossa história e da nossa origem.Transmitidas oralmente de geração para geração, as lendas ajudam a compor a memória de um povo, e é a memória que nos dá consciência e auto-estima. Muito do que se sabe sobre os índios e os africanos se deve às histórias contadas de pai para filho ao longo dos séculos.Câmara Cascudo conta que muitos povos indígenas brasileiros têm um hábito bastante interessante que se mantém até hoje. No final do dia toda a aldeia se reúne - e todos, adultos e crianças, contam como foi seu dia. É a "poranduba", que significa "reunião de moradores da aldeia" e "notícias", "novidades", porque quando as pessoas se reúnem sempre há uma novidade.Reunidos, os índios contam histórias de caça, pesca e a origem das coisas. Todas as coisas, tudo, tudo - animal, vegetal, chuva, Sol, Lua, como remar, fazer uma armadilha de caça, um aparelho de pesca - tudo tem uma história.
Na Idade Média, o jovem adquiria com o mestre o conhe­cimento necessário para a sua profissão. Assim se formavam médicos, professores, escultores, sapateiros, arquitetos, alfaia­tes, músicos, engenheiros, tecelões, cozinheiros, pintores, car­pinteiros. Isso mudou completamente. O ensino é feito nas escolas e faculdades, porém o aperfeiçoamento universitário (as pós-graduações) ainda depende do mestre que orienta o aluno individualmente a educação, o folclore e a tradição oral são muito importan­tes. E tamanha é a importância da tradição que foi um moder­nista, o escritor Mário de Andrade, o responsável pela reunião e catalogação das festas, danças e músicas brasileiras.Como escreve Ecléa Bosi em O Tempo Vivo da Memória, à me­dida que partilhamos da experiência de ouvir e contar histórias nos tornamos um importante elemento de continuidade e trans­formação. O folclore possibilita a continuidade e a transforma­ção ao mesmo tempo.Nesse ponto, o papel do contador de histórias é fundamen­tal. Durante gerações, a memória só pôde se perpetuar devido à tradição oral. O contador e o narrador também são um pouco autores, de forma que a cada vez que uma história é narrada, ela ganha um elemento do presente. É assim que essas lendas e mitos se mantêm vivos para as novas gerações.As lendas folclóricas falam dos sentimentos e das vivências mais marcantes das pessoas, como amor, ódio, inveja, amizade, traição, poder, morte etc. Por isso, as lendas ajudam a criança a liberar as emoções e facilitam o processo de autoconhecimento.Mesmo no mundo contemporâneo, com tantas mídias eletrô­nicas, as histórias do folclore ainda são o melhor alimento para o imaginário infantil. Elas aliviam as pressões inconscientes da criança e ajudam a elaborar os conflitos do processo de cresci­mento e socialização.Diversos estudiosos, como o pedagogo uruguaio Jesualdo Sosa, apontam que a imaginação é o aspecto primordial para o desenvolvimento intelectual - e o folclore compartilha com a criança o mundo da imaginação. A literatura infantil está intrin­secamente ligada à fantasia, e o folclore é uma das etapas mais importantes dessa literatura, com a grande vantagem de "falar" para todas as idades.
Silvana Salerno

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